News Opinion

Na véspera do Dia da Consciência Negra, outro homem negro é assassinado no Brasil

A cada 23 minutos morre um jovem negro no Brasil. Das 30 mil pessoas assassinadas no país, 23 mil são jovens negros.

Por Pedro de Castro Souza

A cada 23 minutos morre um jovem negro no Brasil. Das 30 mil pessoas assassinadas no país, 23 mil são jovens negros.1 Estes não são casos isolados, mas sim o resultado do racismo estrutural e sistêmico que se reproduz no Brasil e em muitos países da América Latina que têm uma história colonial de violência e negligência para com os seus cidadãos negros e pardos.

Na véspera do Dia da Consciência Negra (20 de Novembro), em Porto Alegre, dois seguranças brancos do Carrefour espancaram João Alberto Silveira Freitas até a morte, enquanto ainda estavam  no estacionamento do supermercado. Testemunhas filmaram as cenas chocantes de brutalidade e imploraram aos seguranças que parassem. Enquanto isso, outros funcionários do Carrefour intimidavam as pessoas que gravavam as cenas. Em muitos vídeos que circulam online, é possível ouvir Freitas gritando por socorro. O espancamento durou 5 minutos e 20 segundos e terminou com um dos seguranças se ajoelhando nas costas da vítima. Quando a polícia e os primeiros socorros chegaram, já era tarde demais. 

Carrefour e Vector, a empresa que subcontrata o pessoal de segurança, expressaram solidariedade à família da vítima e lamentaram que a situação tenha se agravado até a morte de Freitas. O Carrefour também prometeu abordar questões recorrentes de racismo em seus estabelecimentos. Nas redes sociais, muitos condenaram a rede de supermercados por sua história racista e violenta no Brasil. Em Agosto, em Recife, um dos seus empregados passou mal e faleceu dentro da loja. Ao invés de fechar a loja, o seu corpo foi escondido por guarda-chuvas para não perturbar os clientes e as vendas. Numa outra filial, no Rio, um empregado foi demitido após ter denunciado casos de racismo de seus colegas de trabalho. Em Novembro de 2018, em São Bernardo do Campo, empregados do Carrefour espancaram outro negro por abrir uma lata de cerveja dentro do supermercado.2

O caso de Freitas está sendo investigado e os guardas de segurança foram presos por homicídio. No entanto, agentes do governo seguem negligenciando a gravidade da situação, com declarações como a do vice-presidente, Hamilton Mourão, de que “o racismo não existe no Brasil“. O caso de racismo contra Freitas e tal posicionamento do governo brasileiro causaram indignação à sociedade civil brasileira e ativistas negros pelo país. Em diferentes cidades e estados, manifestantes foram às ruas clamando “vidas negras importam” e “eu não consigo respirar”. Tais protestos têm o intuito de honrar a vida de Freitas e denunciar o racismo estrutural e sistêmico que diariamente violenta e tira a vida de negros e pardos por todo o Brasil.

Assim como nos  Estados Unidos e na África do Sul, o Brasil tem uma longa e violenta história de racismo, o que vai de encontro com a suposição de que seria uma “democracia racial”. Ao mesmo tempo que recebia a maior diáspora africana do mundo, o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão em 1888. Na realidade, o governo brasileiro vem infligindo constantemente e continuamente violência contra as suas populações negras e pardas. Simultaneamente, o estado silencia a luta deles ao sugerir que o Brasil é uma “sociedade mista” e que, por isso, o racismo sistêmico seria uma impossibilidade. Atualmente, o Brasil é uma sociedade ‘de facto’ segregada. Não surpreendentemente, a classe dominante é majoritariamente branca, enquanto a classe trabalhadora de negros e pardos vive numa situação precária e marginalizada. É um país de contrastes e de desigualdades explícitas, onde é possível encontrar prédios luxuosos ao lado de uma favela.  

A normalização desta realidade vigente tem raízes coloniais no Império Português. Foi nessa época que estruturas de exploração e abandono das suas populações negras e pardas foram criadas, as quais se mantêm até os dias de hoje. Este passado colonial explica porque as forças policiais brasileiras são uma das mais violentas e brutais do mundo, visto que foram criadas com o objetivo de criminalizar e oprimir as populações negras e pardas durante o período de escravidão e após a sua emancipação. É essa mesma história que explica o porquê dois terços das pessoas encarceradas no Brasil são negras ou pardas. Por ser uma situação enraizada na sociedade e nas instituições, a simples tentativa de mitigar as suas consequências não farão o racismo desaparecer. 

O que alguns não compreendem é que ser negro no Brasil significa viver com medo constante. Medo de sair sem identificação, de ser vítima de uma bala perdida a caminho do trabalho ou da escola, de ser acusado de ser um criminoso e de ser espancado como Freitas foi.  Esse medo constante faz parte do cotidiano de negros e pardos pelo Brasil e os impedem de levar uma vida dita normal, algo que uma pessoa branca nunca compreenderá completamente. Protestos pacíficos não parecem ser eficaz para a criação de mudanças estruturais necessárias para que os negros e pardos brasileiros possam viver de forma segura e digna. Casos como o que aconteceu no Carrefour justificam a frustração, a revolta e a retaliação. Como alguém poderia condenar a reação de negros à violência que eles sofrem todos os dias?

Na véspera do Dia da Consciência Negra, foi João Alberto Silveira Freitas quem perdeu a vida por conta das injustiças do racismo. Antes dele foram Marielle Franco, Agatha Felix, João Pedro Mattos, Kauê Ribeiro dos Santos, Kauã Rozário, Kauan Peixoto, Jenifer Cilene Gomes, Kethellen de Oliveira, Pedro Gonzaga, Marcos Vinicius, Miguel da Silva e tantos outros. Dito isto, convido a todos nós, membros do Graduate Institute, a refletirmos sobre como impedir  a perpetuação do racismo no Brasil e em tantos outros lugares. O que você pretende fazer com a sua posição privilegiada para impedir que outra vida negra ou parda seja tomada injustamente?


Pedro de Castro Souza é mestrando em Relações Internacionais e membro da Latin American Network Initiative (LANI).


Foto de capa: “Ato Vidas Negras Importam • 07/06/2020 • Belo Horizonte/MG” por midianinja é licenciada pela CC BY-NC 2.0

Foto 2: “Ato Vidas Negras Importam • 07/06/2020 • Belo Horizonte/MG” por midianinja é licenciada pela CC BY-NC 2.0

Foto 3: “Ato Vidas Negras Importam • 07/06/2020 • Belo Horizonte/MG” por midianinja é licenciada pela CC BY-NC 2.0

0 comments on “Na véspera do Dia da Consciência Negra, outro homem negro é assassinado no Brasil

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: